Solar

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quarta-feira, 17 de junho de 2015

A história da Dona Marlene: Porque Superar é preciso. Seguir em frente é essencial



- Mas eu não sou daqui. Eu sou de Santiago. Eu aqui tenho a borracharia, eu pinto apartamento, faço faxina, eu ajudo as pessoas aqui em volta. Eu sou apaixonada por obra. Fiz curso no Senai. A única coisa que eu detesto é eletricidade. Não é que eu não goste, eu até acho bonito fazer e gostaria de fazer, mas eu tenho medo. Eu já levei choque brabo de me atirar longe. Daí quando cai uma luz, MUITO OBRIGADO, nem lâmpada eu não troco. Não, estóra, eu fico grudada, não. Essa caminhoneta eu comprei só com o dinheiro das minhas faxina e da pintura dos meus apartamento. Eu trabalho sábado, domingo, dia santo. A borracharia aqui eu tenho há 13 anos. Mas meu marido era pedreiro, eu vendia roupa né? Comprava roupa usada e vendia. A ideia de botar uma borracharia? Foi engraçado, foi assim. Nós fomos acampar, eu e meu marido, a gente casou em janeiro, fazia um mês e pouco. Eu tinha uma Brasília, nós tínhamos dois estepes, só que a gente furou três pneu. Daí eu peguei uma carona e fui pra cidade, Santiago, arrumar o pneu pra ir lá buscar ele. Cheguei numa borracharia, tava fechada mas o dono da borracharia morava lá. Aí eu falei com ele pra ele arrumar o pneu, né? E ele “Não. Hoje é domingo, eu não vou trabalhar. Eu não trabalho domingo. É o único dia que eu tenho pra descansar”. Eu disse “Bah, mas meu marido tá lá na estrada, né? Tá empenhado lá”. “Mas olha nem que tu me pague o valor de 10 conserto eu não arrumo”. Eu disse “Tá”. Entrei no carro que me deu a carona e pedi pra me deixar num ponto de taxi que ia conseguir alguém que me arrumasse. Ele disse “Não eu te levo”. Daí fui noutra borracharia. Cheguei lá o dono tava na frente. Borracharia fechada. Eu digo “Tem como consertar o pneu pra mim?”. Ele disse “Não. Eu não trabalho domingo”. Te resumir assim, 5 borracharia. Na 5ª borracharia eu embrabeci. Eu disse “Ah, eu já fui em 5 borracharia, ninguém quer arrumar. Eu amanhã vou botar uma borracharia pra mim. Eu vou trabalhar domingo, feriado, dia santo e vou consertar pneu pra todo mundo – quem tá viajando, quem precisa – e vou ganhar dinheiro. Vou ganhar mais do que vocês. Vocês são uns borracheiro pelado. E eu vou ficar rica”. Saí. Fui num conhecido nosso que tinha Brasília, pedir um pneu emprestado. Fui noutro que tinha um Fuca pedir um pneu emprestado. E daí fui lá buscar o meu marido, peguei um taxi, fui lá e nós viemo embora. Eu sou muito braba. Naquela noite eu não dormi, furiosa de terem feito aquilo comigo. No outro dia, eu levantei cedo. Daí eu disse pro meu marido “Eu vou botar uma borracharia”, ele riu de mim. “Tu vai ver, eu vou botar uma borracharia”. Daí o seu Pedro Nicola, eu fui lá na loja dele pedir pra falar com ele. Daí eu fui falar com ele, né, e disse “O senhor me diz como que a gente bota uma borracharia. Que que eu tenho que fazer?”. Ele disse “A senhora tem que ter o local. A senhora tem que aprender, ver se vai dar certo o que a senhora vai fazer. Depois a senhora tem que comprar as máquina. Se a senhora pode alugar um terreno e construir ou alugar um lugar que já esteja pronto pra senhora colocar. Só que vai sair mais caro, aqui tem muito terreno no centro. A senhora pode alugar um e construir”. Aí fui lá num senhor que tinha um terreno bem perto das lojas. Ele disse “Não”. Saí e encontrei o filho dele, que tinha uma bicicleta, e contei como foi. O guri voltou correndo e o pai dele abriu a porta e me chamou. “Ele disse que é pra alugar o terreno. O vô dele deu pra ele”. Daí eu fui na borracharia. Cheguei lá e pedi pro rapaz me ensinar a trabalhar, ele riu. “Teu marido?”, eu digo “Não, eu. Eu vou aprender”. Ele disse “Te ensino”. Ele me conhecia, né? No primeiro dia chegou dois carros de manhã. No segundo dia de manhã começou a chegar carreta. Ele arrumou a primeira, arrumou a segunda e dizia pra mim “Olha bem como é que faz, olha bem como é que faz”. Terceira carreta que chegou, ele disse “Aquela terceira é tua, a outra quarta é minha”. Daí eu fiz como ele disse. Ficaram apavorado. Fui tirando pneu, fui arrumando. É só a prática, né? O pneu que diz que é pesado é a prática de tombear ele pra levantar ele. Aí arrumei. Em duas semanas ele já me entregava a borracharia e já saía. Aí fiz relação do que eu precisava, compressor, chave de roda, numero das chave, tudo, né? As espátula – não existia essas máquina de abri pneu, era tudo nas mãos. Tinha que colocar as espátula e tirar. Tá, construí a borracharia. Eu fiz, meu marido só levantou a base pra mim e eu levantei as parede, fiz a coberta. Inaugurei a borracharia. Lá eu trabalhei por 26 anos. Daí eu fechei ela faz 6 anos. Eu vendi lá.
E por que a senhora veio pra cá?
- Pros meus filhos estudarem. Já te contaram que eu tenho 21 filhos adotivos? Registrados como filhos legítimos são só 11. E outros 10 é termo de guarda. Porque os pais que me deram não aceitavam dar como legítimo. Assim ó, quando eles tem uma idade, os pais não podem com a vida deles, eles entregam pro juiz. E daí o juiz chama a gente e chama os pais. “Vai ficar com a Dona Marlene agora. Não vai mais pra tua casa, vai ficar com a Dona Marlene. Só o termo de guarda”. Daí fica, continua sendo filho deles mas fica comigo a criança. E recém nascido são 11 que eu adotei. Eu sempre tive opinião assim ó, que ninguém quer dar um filho. Não existe quem queira dar, existe quem não pode criar. Daí tu pergunta: como é que uma pessoa ganhou esse horror de criança? Eu fiz uma promessa pra adotar eles, daí eles vinham pra mim. Eu me casei em 1980, dia 6 de janeiro de 1980. Dia 4 de março de 1980 eu descobri que eu tava com câncer generalizado. Fiz 5 cirurgia. Na última, o doutor disse pro meu marido, foi dia 4 de julho, ele não viu que eu tava do lado de fora da porta escutando, o doutor tava dizendo que o meu marido se preparasse porque eu não alcançava o Natal junto com eles. Dali três dias me deu outra crise, fiquei mal, mal. Daí fui pra UTI. Eles me abriram de novo. Tiraram 16 cm do intestino, tinha aparecido outro tumor e tava apertando a veia que cruza o sangue. Daí comecei a fazer uma retrospectiva na vida. O que que tenho de bom na minha vida? Eu nunca quis criança. Daí eu pensei “Se eu melhorar e eu trabalhar como eu trabalhava antes, eu vou adotar duas crianças. Duas todo mundo adota, né? Não, faz assim, senhor, mande pra mim todos aqueles que ninguém quer. Não interessa quantos forem, se eu melhorar o senhor me manda todos aqueles que ninguém quer. Serão os meus filhos”. Tá, não sei que tempo dormi. Não sei que tempo fiz aquela promessa. Quando eu me acordei eu tava com tubo na boca. Daí o enfermeiro tirou. Eu tava normal como eu to aqui agora, só me doía a garganta. Eu disse pro meu marido “Eu tava mal, eu fiz uma promessa pra melhorar e vou adotar umas crianças. Tu não é obrigado a ficar comigo. Tu pode seguir a tua vida, porque a promessa é minha, não perguntei pra ti antes se eu podia fazer. E tu é novo, tu pode seguir a tua vida que eu sigo a minha”. Ele disse “Não, se tu voltou do tanto que eu te chamei e rezei e se tu voltou é porque Deus quer que eu fique contigo pra te ajudar a pagar a promessa”. Daí agora em janeiro a gente fez 35 anos de casado. A borracharia sempre deu pra criar todos eles. Crediário existe, né, tu compra tudo no crediário. Hoje se largarem uma criança na porta da minha casa, eu não crio. Eu levo direto pro Fórum e eu não crio. Eu vou vender esse ano e não quero nem saber. Quero ir embora, quero ir bem pra longe. Quero morar em Tocantins. Eu acho bonito lá. Eu vi na internet. Lá tem aqueles cânions. Eu vou comprar um motorhome e vou me embora, vou pra estrada, vou viver a minha vida. Que eu vivi a vida inteira pros outros. Eu vivi pra pai e mãe, depois vivi pros filhos dos outros e agora vou viver a minha vida. Só eu e meu marido. Ele é uma pessoa maravilhosa. Ele nunca disse não. Pra eu chegar e só dizer pra ele “Vamo no Fórum, apareceu outra criança. O juiz chamou, vamo lá buscar outro. Vamo lá registrar esse”. Nunca se negou. Quando parou de surgir criança – quando eu vim pra cá já fazia 4 anos que tinha parado de surgir criança. Não veio mais. Chegou nos 21, chegou. Deus disse “Agora chega né”, nunca mais apareceu nenhum. O que eu mais queria era que eles estudassem. Eu não tive condições de estudar, eu comecei a trabalhar com 7 anos de idade. Com 12 anos, a minha mãe disse pra mim “Tu não vai mais poder estudar. Tu vai ter que trabalhar agora, de manhã e de tarde”. Eu chorava porque eu não podia estudar, eu queria ser engenheira, porque o meu pai era pedreiro. Eu me enxergava eu de cima de uma casa, duma obra de um prédio grande. Não, naquela época não existia capacete não. Eu sempre ensinei pra eles assim: respeitar as mulheres. A mulher quando ela não te ajuda, larga ela. Tem outro esperando ela, e tem outra esperando tu. Não bate. Não toca um dedo. Porque hoje o que tu fizer, amanhã a tua filha vai sofrer as consequências. É assim que eu ensinei eles: o respeito com o ser humano, com os idosos, com o animal, com as árvores. Todos eles sabem lavar roupa, cozinhar, limpar a casa, costurar, trocar tomada, trocar torneira, arrumar ferro elétrico, trocar resistência do chuveiro. Por que aí eles não tem que pagar, né? A vida né, tu nunca sabe o que te aguarda pra frente. E aprender não ocupa lugar.
E as mulheres procuram muito a senhora na borracharia?
- Procuram porque é uma mulher que atende né? As vezes chegam aqui e o meu marido tá atendendo e aí perguntam “E a Dona Marlene?”. Daí eu venho. Hoje eu já arrumo bem menos pneu. Gosto de pintura de apartamento, pinto garagem. Aqui em volta eu sou sindica do prédio do lado. Já arrumei até 48 pneu por dia lá em Santiago. Já chegaram e disseram, né, “Aqui não tem pôster de mulher pelada”, porque tudo que é borracharia tem. Aqui é bom porque a minha borracharia é a única que trabalha no fim de semana e feriado e quando tu chegar e perguntar em qualquer posto eles te ensinam onde é aqui. As mulheres não sabem de pneu e daí elas vem e sabem que mulher vai explicar. Eu não sou fingida, eu não sei fingir.

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