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terça-feira, 14 de julho de 2015

Sem repasse do governo, três hospitais da região interrompem atendimento



A crise que atinge o Estado e afeta a saúde pública gera reflexos alarmantes nas instituições que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na Região Central, cinco hospitais sofrem mais com a falta de repasses. Em Júlio de Castilhos, São Pedro do Sul e Rosário do Sul, serviços já foram interrompidos. Em Faxinal do Soturno e em São Gabriel, o atendimento ainda não foi afetado, mas, se os recursos não vierem, também pode haver interrupções.

 Veja como está a situação da saúde pública em Santa Maria e na região


Em Santa Maria, a situação também é complicada e foi detalhada em uma reportagem publicada na edição do último final de semana do Diário. A série SOS saúde apresenta os detalhes das cidades vizinhas que também sofrem com os poucos recursos. A próxima reportagem vai trazer a resposta do governo para o problema.

Três pessoas morrem em Santa Maria à espera de leito em UTI


Em Júlio de Castilhos, as cirurgias pediátricas foram canceladas, e oito funcionários já deixaram o Hospital Bernadina Salles de Barros. De acordo com o gerente administrativo, Leonardo Dalla Nora, haverá novo corte de funcionários.

Santa Maria vai entrar na justiça para obter recursos devidos pelo Estado


– Para os próximos meses, não temos como pagar a folha. Se, nos próximos 45 dias, não for repassado nenhum recurso, todos os atendimentos ambulatoriais e internações pelo SUS deixarão de ser feitos – lamenta Dalla Nora.

Casa de Saúde segue sem realizar partos


O atraso nos salários dos funcionários motivou uma assembleia da categoria na tarde de segunda-feira. Segundo o presidente do Sindicato da Saúde de Santa Maria e Região, José João Geremias, se os 70% dos salários referente a junho não forem pagos até dia 24, os funcionários irão parar as atividades.

Casa de saúde recebe mães que acabaram de ganhar bebês

– Os trabalhadores precisam receber. Isso daqui é a fonte deles. Se não tiver os salários, eles irão entrar em greve.

Apesar da superlotação, Husm é o único hospital que está fazendo partos pelo SUS

A situação assusta Olivia Cordeiro dos Santos, 58 anos. A agricultora está acompanhando a vizinha, Carmelinda Mouro, 80 anos, que a cada dois dias precisa de internação para tratar as crises de bronquite:

– Se parar (o atendimento), onde vão colocar as pessoas? É o nosso único hospital, não temos condições de pagar particular. Nem quero imaginar se não tiver isso daqui.

Em Faxinal do Soturno, no Hospital São Roque, de acordo com o administrador, Flavio Stona, cerca de R$ 2 milhões não foram repassados à instituição, valor que impossibilita o pagamento de funcionários e também interfere no andamento das atividades.

– Teremos que suspender as cirurgias de traumatologia, porque, antes, o recurso vinha atrasado, mas vinha. Agora, o hospital não tem como sustentar – afirma.

Três ainda recebem verbas


No levantamento feito pelo Diário, em três instituições – Hospital Rainha dos Apóstolos, em Dona Francisca; Hospital Doutor Roberto Binatto, em São João do Polêsine e, Hospital Municipal Doutor Pedro Jorge Calil, em Formigueiro – não há falta de repasses, pois são mantidos pelos municípios.

No Hospital de Caridade de Mata, segundo a interventora, Marta da Silva, os repasses estão normais. No Hospital de Caridade de Santiago e no Hospital de Caridade de Jaguari, mesmo com a falta de repasses, não há reflexos, segundo o administrador, Ruderson Mesquita Sobreira.

O Hospital São Vicente de Paulo, de Cruz Alta, não quis se manifestar sobre a atual situação e ficou fora do levantamento, assim como o Hospital São Vicente do Sul, de São Vicente do Sul, já que o responsável pelas informações não foi localizado pelo Diário.

Medidas emergenciais como solução


A queixa de grande parte dos hospitais é de que o Incentivo de co-financiamento da assistência hospitalar (Ihosp), que complementava o custo dos procedimentos de média complexidade, foi cortado em janeiro desse ano. A verba servia para cobrir o déficit deixado pelos valores pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para tentar diminuir o impacto, os hospitais estão cortando horas extras, não repondo vagas de funcionários que estão deixando os hospitais e evitando reformas. As soluções foram adotadas para que os atendimentos não sejam prejudicados.

– A manutenção dos atendimentos está atrelada aos repasses. Se somos pegos de surpresa com cortes, não temos como nos planejar. O hospital quer manter os serviços, mas precisa de regularidade – afirma Clautério Claudio Franke, administrador do hospital de Agudo.

Em pelo menos cinco hospitais, as prefeituras repassam uma verba mensal, medida que ajuda a manter as instituições. É o caso de Restinga Seca, onde o hospital recebe cerca de R$ 75 mil por mês do município. No entanto, na maioria das instituições, sem a ajuda das prefeituras, funcionários já foram demitidos e, em pelo menos oito, a folha de pagamento está atrasada. Na Sociedade Hospitalar Nossa Senhora da Saúde, em Ivorá, o pagamento dos salários está sendo feito em partes.

– Os salários estão sendo pagos em parcelas, conforme chega o repasse. Ainda não reduzimos os atendimentos, mas contamos com a ajuda da população, que acaba fazendo doações para o hospital – afirma Aliciana Soleiman, enfermeira que responde pela administração.

Segundo Luiz Carlos Venturini Dotto, provedor do hospital de São Gabriel, a expectativa é que os recursos cheguem para que os atendimentos não sejam prejudicados:

– Os incentivos eram um complemento da tabela SUS que não é mudada há muito tempo. Sempre cumprimos o que estava em contrato e fazíamos procedimentos extras. Não recebíamos pelas cirurgias eletivas, por exemplo, mas fazíamos. A partir de agora, não teremos mais como fazer.

Santa Maria vai investigar mortes em PAs


Entre maio e junho deste ano, 27 pessoas morreram na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) e 28, no Pronto Atendimento do Patronato. De acordo com o prefeito Cezar Schirmer (PMDB), os números são referentes a pacientes que estavam internados e vieram a falecer por diferentes motivos.

– Os atendimentos pelo SUS só pararam na Casa de Saúde e no Hospital Alcides Brum no final de julho. Se houve consequência, ainda não sabemos, porque não temos os dados de julho tabulados. Além disso, de maio a agosto, aumentam o número de mortes no Sul em função do clima – afirma o prefeito.

O levantamento do número de mortes foi feito a pedido da Secretaria de Saúde do município. A cidade ainda avalia se entrará na Justiça para tentar obter os recursos devidos pelo Estado, pois, de acordo com Schirmer, na semana passada, o Estado repassou cerca de R$ 1,5 milhão dos valores atrasados. Além disso, segundo o prefeito, a verba é encaminhada diretamente para a Casa de Saúde e para o Hospital Alcides Brum, sem passar pela prefeitura.

Em entrevista à RBS TV, a superintendente da secretaria de Saúde, Liliane Mello, disse que as causas dos óbitos serão investigadas para saber se há ou não relação com a crise que a cidade vive na saúde:

– Vamos avaliar um por um dos óbitos. Temos que ver que doenças essas pessoas tinham, o histórico dessas doenças, como foram atendidas e a necessidade de leitos, como foi encaminhado esse processo.

A prefeitura não quis repassar os nomes e as causas das mortes dos pacientes, sob alegação que os dados são sigilosos e não deveriam ter sido divulgados.

A SITUAÇÃO NA REGIÃO


Hospital Bernardina Salles de Barros, em Júlio de Castilhos

Serviços – Internações, atendimentos de urgência e emergência, cirurgias e exames (mamografia, raio-x e densitometria óssea)
Número de funcionários atualmente – 74
Número de atendimentos atualmente/mês – 5 mil
Repasses atrasados – Ultrapassa R$ 1,5 milhão
Consequências – Oito funcionários foram demitidos. Salários estão atrasados e não há como pagar a equipe nos próximos meses. Cirurgias pediátricas foram canceladas. Serviço do Samu pode ser cancelado e corre o risco de não ter médico 24h por dia. Pacientes terão que arcar com a medicação
Medidas adotadas – Pode haver nova redução de funcionários. Exames laboratoriais serão feitos somente em casos extremos. Medicação será ministrada somente para pacientes internados ou em observação, e raio-x, somente em caso de fratura/trauma e pneumonia

Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, em Rosário do Sul 

Serviços – Atendimentos de urgência e emergência, internação, serviços de oftalmologia e saúde mental, clínica de hemodiálise e UTI
Número de funcionários atualmente – 200
Número de atendimentos atualmente/mês – 6 mil
Repasses atrasados – Mais de R$ 800 mil
Consequências – Os salários de médicos estão atrasados, e o 13º salário de 2014 não foi pago. O serviço de traumatologia está interrompido. 15 funcionários já deixaram o hospital, e as vagas não serão repostas
Medidas adotadas – Estão negociando um empréstimo para o pagamento do 13º salário. Mais funcionários devem deixar o hospital. Proposta de novo contrato com o Estado, que deve ser renovado até dezembro, inclui novos serviços, para que aumentem os lucros do hospital

Hospital Doutor Getuinar D’Avila do Nascimento, em São Pedro do Sul

Serviços – Atendimentos de urgência e emergência, internação de baixa e média complexidade, radiologia, vascular, cardiologia, otorrinolaringologia, ginecologia e obstetrícia e pequenas cirurgias
Número de funcionários atualmente – 120
Número de atendimentos atualmente/mês – 4,5 mil
Repasses atrasados – R$ 1,5 milhão
Consequências – Suspenderam os serviçoscardiológicos, vasculares e de otorrinolaringologia
Medidas adotadas – Empresa que prestava os serviços cortados era terceirizada, e os funcionários não trabalham mais no hospital. Também houve corte de horas extras

Hospital São Roque, em Faxinal do Soturno 

Serviços – Cirurgia de traumatologia e gerais. Serviço de oftalmologia e consultas médicas
Número de funcionários atualmente – 112
Número de atendimentos atualmente/mês – 7,5 mil
Repasses atrasados – Ultrapassa os R$ 2 milhões
Consequências – Pagamentos de fornecedores estão atrasando. Cirurgias de traumatologia terão que parar. Salários de cinco médicos traumatologistas estão atrasados. 14 funcionários foram demitidos
Medidas adotadas – Vagas de funcionários demitidos não serão repostas. Obras que estavam em andamento, como a da Unidade Geriátrica, estão paradas. Horários de atendimentos serão reduzidos

Irmandade Santa Casa de Caridade, em São Gabriel

Serviços – Atendimentos de urgência e emergência, exames, otorrinolaringologia, neurologia, traumatologia e urologia
Número de funcionários atualmente – 540
Número de atendimentos atualmente/mês – 8 mil
Repasses atrasados – R$ 2 milhões
Consequências – Não há previsão de pagamento da folha para o próximo mês. Estão prevendo demissões para agosto
Medidas adotadas – Houve redução de horas extras. Reformas que estavam sendo feitas foram cortadas. No próximo mês, os procedimentos eletivos pelo SUS devem ser suspensos

Hospital Santo Antônio, em São Francisco de Assis  

Serviços – Atendimento ambulatorial, internações e cirurgias, exames de raio x, ultrassom
Número de funcionários atualmente – 95
Número de atendimentos atualmente/mês – De 3 a 4 mil
Repasses atrasados – R$ 539 mil
Consequências – Cinco funcionários já deixaram o hospital. Atendimento no ambulatório foi reduzido em torno de 40% e as internações em 20%
Medidas adotadas – Vagas não serão preenchidas. Quem está se aposentando, não ficará. Novo contrato deve prever menor número de atendimentos

Associação Hospital Agudo, em Agudo

Serviços – Atendimento de clínicas básicas, cirurgias, referência no atendimento de otorrinolaringologia e mamografia
Número de funcionários atualmente – 82
Número de atendimentos atualmente/mês – 850
Repasses atrasados – R$ 880 mil
Consequências – Atendimentos ainda seguem normal. Quatro funcionários pediram demissão. Fornecedores estão restringindo materiais e medicamentos. INSS e fundo de garantia estão atrasados.
Medidas adotadas – Demissões não serão repostas. Atendimentos podem ser reduzidos. Corte de horas extras

Hospital de Caridade de Santiago, em Santiago

Serviços – Atendimento em CTI, hemodiálise, internações, cirurgia e Centro de Diagnóstico por Imagem e serviço ambulatorial
Número de funcionários atualmente – 470
Número de atendimentos atualmente/mês – 1000
Repasses atrasados – R$ 4 milhões
Consequências – Não teve reflexos com a falta de repasses
Medidas adotadas – Dinheiro dos convênios privados e tratamentos particulares do Centro de Diagnóstico por Imagem auxiliam o hospital

Hospital de Caridade Jaguari, em Jaguari  

Serviços – Internação e Pronto Socorro
Número de funcionários atualmente – 80
Número de atendimentos atualmente/mês – 900
Repasses atrasados – R$ 400 mil
Consequências – Não tem reflexos pela falta de repasses
Medidas adotadas – Tem parceria com a prefeitura

Casa de Saúde São José, em Pinhal Grande

Serviços – Internação, ambulatório e cirurgias eletivas
Número de funcionários atualmente – 19
Número de atendimentos atualmente/mês – 350
Repasses atrasados – R$ 22 mil
Consequências – Ainda se mantêm pois o município repassa R$ 95 mil por mês
Medidas adotadas – Fazem eventos no município para arrecadar verbas

Hospital de Caridade Doutor Víctor Lang, em Caçapava do Sul 

Serviços – Internações, urgência e emergência, ambulatorial, cirurgias
Número de funcionários atualmente – 110
Número de atendimentos atualmente/mês – 3 mil 300
Repasses atrasados – R$ 500 mil
Consequências – Cirurgias eletivas foram reduzidas, cinco funcionários foram demitidos Medidas adotadas – Redução de horas extras, consultas que não são urgência não são medicadas. Demissões não serão repostas

Fundação Santa Helena, em Santana da Boa Vista 

Serviços – Internações, atendimentos ambulatoriais, atendimentos de urgência e emergência e exames (raio-x, ultrassonografia e eletrocardiograma)
Número de funcionários atualmente – 40
Número de atendimentos atualmente/mês – 600
Repasses atrasados – R$ 400 mil
Consequências – Salários atrasados, dívidas com fornecedores e prestadores de serviço
Medidas adotadas – Quadro de funcionários deve ser reduzido em 25%. Hospital busca apoio na cidade através de doações e participação em eventos beneficentes

Associação Beneficente Hospital Santo Antônio, em São Sepé

Serviços – Pronto Atendimento, internações e cirurgias
Número de funcionários atualmente – 89
Número de atendimentos atualmente/mês – 2300
Repasses atrasados – Quase R$ 800 mil
Consequências – Pagamento de fornecedores está atrasado, médicos estão com os salários atrasados e dois funcionários da parte de obras foram afastados
Medidas adotadas – Estão recebendo auxílio da prefeitura
Fonte:Diário de Santa Maria



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